Eu tinha lá os meus longos 11 anos (risos), quando eu corria como uma garça, porque era muito alta, com aquelas pernas compridas, uma cabeleira exuberante e muita vida no olhar, que eu levei um grande susto na vida. Eu brincava, como todas as crianças, e ficava segurando o xixi até o limite de fazer nas calças e, quando já não aguentava mais, corria para qualquer lugar escondidinho que fosse possível me aliviar no menor tempo possível.
Numa dessas vezes, eu estava com minhas primas, todas menores que eu, então não podiam me ajudar, correndo pelo quintal da casa da minha avó, bem, na verdade era a casa da minha tia, que era muito minha amiga, mas já havia falecido, e minha avó foi morar lá para cuidar dos meus primos. Lá era o nosso point, justamente por ser a casa da avó.
Nessa casa, sentíamos o cheiro do frango assado saindo do forno, o doce de abóbora com coco fervendo no fogão e o doce de banana que ficava roxo depois de pronto, mas não me pergunto o porquê…
Mas chegou o dia em que esse cenário mudou. As cores fugiram, o medo tomou conta de mim, eu fiquei com uma dúvida do que poderia ter acontecido. Eu senti muito medo… Mal sabia eu que era só o começo, o começo da minha vida feminina. Eu deixei de ser como minha primas e primos. Foi chocante!
Voltemos para a correria das crianças…
Já estávamos correndo há algum tempo, era mês de junho, dia 22, mais precisamente, e aquela vontade de fazer xixi, misturada com a pressa, me colocou em um impasse: não vai dar tempo de ir no banheiro e fui fazer xixi no que seria um banheiro da edícula um dia, só tinha um ralo. Me agachei, recorri ao meu alívio e quando levantei lá ficou uma pocinha bem pequena de sangue.
Tomei um susto enorme, senti medo, fiquei pensando de onde teria vindo aquele sangue. Eu não sabia, mas era a minha primeira menstruação, a MENARCA.
Como eu não sabia o que era, não falei nada para ninguém. Joguei água para o xixi ir embora e voltei a brincar, mas meus pensamentos ficaram lá.
No dia seguinte, acordei com uma dor na barriga, aí não teve jeito, tive que contar para minha mãe, e aí meu mundo mudou. Ela ficou embasbacada, com cara de susto me olhando e mandou eu chamar nossa vizinha.
Eu achei que era caso de gravidade, agora eu já estava com mais medo, achando que eu ia morrer, afinal eu amanheci com uma dor na barriga e tinha sangue na minha calcinha. Mas minha mãe não tinha coragem de me dizer o que era aquilo, chamou a amiga para me contar.
A vizinha veio, me contou que era a minha PRIMEIRA MENSTRUAÇÃO, que a dor na barriga era uma cólica, e que isso ia durar uns 4 ou 5 dias. As duas me deram um pacote de Modess, o absorvente da época, que mais parecia um tijolo de algodão revestido de um plástico e uma cola, mas não ensinaram a usar, não explicaram mais nada, e a cola foi parar virada para cima, me arrancando a pele e os pelos na hora de tirar. Me disseram que aquele sangue podia sujar a roupa, então eu tinha que cuidar para não acontecer, mas também não me disseram como, e era só isso… E eu fui adiante, com muitas dúvidas, mas segui.
Não falaram sobre a normalidade desse movimento do meu corpo, mas disseram que agora eu não era mais criança, que minhas pernas enxeriam de varizes se eu pulasse enquanto tinha o sangramento, que eu podia engravidar se não me cuidasse, mas também não explicaram esse cuidar-se. Outro cenário de terror. Era como se eu tivesse sido arrancada da minha infância de repente, de forma abrupta e com pouquíssimas informações. Só medo e uma sensação de que agora eu estava suja, correndo perigo e minha infância tinha ficado para trás.
Minha avó, ainda mais velha que minha mãe e a sua amiga, carregava ainda mais tabus, e me deu uma lista de coisas que eu não podia comer para o sangue não feder, que eu não podia lavar a cabeça porque podia desenvolver dor de cabeça crônica ou até enlouquecer… Affff, só pânico.
Não teve flores, comemorações ou sorrisos. Eu nem sei se algum dia meu pai foi informado que agora eu era MOCINHA, como se dizia na época. Acho que ele deduziu com o passar do tempo.
Mas, nem tudo estava perdido.
Eu tinha uma professora de Ciências, e aqui estavamos falando de 1985, a professora Neusa, que sempre foi moderna, antenada e tratava todos nós, alunos e alunas, com muito cuidado. Culminou que na mesma época, passados poucos meses, tivemos aula de educação sexual, falamos sobre corpo, hormônios, higiene pessoal, as questões da reprodução humana e eu respirei aliviada.
Entendi que meu corpo estava correndo o seu curso natural, que o mal cheiro poderia vir pela falta de higiene, que a gravidez só aconteceria se houvesse contato sexual com falta de proteção e de preparo, que minha infância estava acabando, mas que novas fases da minha vida viriam, cada uma com a sua beleza.
Depois desse turbilhão todo eu me dediquei a aprender mais sobre o meu corpo, a compreender o que era mito ou verdade, mas o que mais fortaleci em mim, foi em criar formas simples e diretas de conversar com meu filho, que veio aos meus 33 anos, minhas sobrinhas e sobrinhos, meus alunos e alunas, ou qualquer pessoa que se interesse por coisas novas e que eu possa ajudar a compreende-las. Descartei a importância que os tabus ganham, me conscientizei que os mitos não podem estar nas narrativas sobre a saúde e que a verdade dita de forma clara e suave é libertadora.
E com uma HISTÓRIA DE COMEÇO, contanto sobre a importância de uma boa conversa, inicio minha jornada nessa nova coluna sobre Saúde da Mulher, toda semana, em uma parceria maravilhosa com as jornalistas da Cacau Comunicações. Espero te encontrar aqui sempre para discutirmos esse universo particular que é o corpo feminino.
Beijo da Linda para vocês, até a próxima.






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