Baseado em um livro infantil de 1963 escrito por Maurice Sendak,  o “Onde Vivem os Monstros”, longa metragem dirigido por Spike Jonze, pode ser confundido com uma história ingênua, mas na verdade é um filme profundo que fala diretamente com os adultos que o assistem. Ele traz à tona as sensações de uma infância solitária, e uma criança pequena demais para compreender verdadeiramente o que sente. 

O protagonista é Max, filho de pais separados, ele mora com a mãe e a irmã mais velha, Claire. A mãe se joga no trabalho para conseguir o sustento da família, e mesmo quando sua irmã está em casa, ela sempre parece ocupada. 

A trama principal começa com um dia de neve, Max, como qualquer outra criança, se anima para brincar. Construindo uma toca, ele tenta chamar a irmã para ver, que se mostra desinteressada, ela planejava sair com amigos. 

O grupo de adolescentes chegam barulhentos dentro de um carro, Max tem a ideia brilhante de jogar uma bola de neve, que aos pouquinhos se torna uma guerra de bolas de neve entre ele e os adolescentes. Para ele aquilo estava perfeito, mas tudo se torna um desastre depois que escondido dentro de seu forte de neve, pulam sobre a construção a destruindo.

O garoto assustado com a situação chora, sua irmã envergonhada ignora e entra dentro do carro saindo com seus amigos. Antes do carro sair ele ouve alguém dizer a Clare: “Seu irmão é sensível né”.

Max tem um ataque de fúria, com as roupas cheias de neve ele entra em sua casa e destrói o quarto da irmã, depois ele se deita e dorme. Algumas horas depois sua mãe chega, arrependido ele conta o que fez e ambos limpam tudo juntos. 

O relacionamento entre os dois é complicado de certa forma, Max parece compreensivo em relação ao trabalho da mãe, às vezes até  ajudando a montar suas histórias. Mas ele também parece confuso sobre como se sente em relação a isso. 

Em uma noite, Max sai com seu pijama de lobo à procura das pessoas pela casa. Sua mãe grita do andar de baixo repetidas vezes o chamando para jantar. Chegando na cozinha ele observa por trás da parede. A mãe está com o namorado e o garoto se sente estranho. 

Tentando atrair a atenção da mãe, Max faz uma birra que vai escalando cada vez mais, ao ponto de ele subir em cima do balcão da cozinha por não querer comer legumes congelados. A fim de tirar o filho da bancada, a mãe usa a força para sentar ele na cadeira e acaba sendo mordida. Ambos se assustam, a mãe empurra Max, que surpreso foge da casa. 

Correndo pelo bairro e se esgueirando por passagens no escuro da noite, o garoto chega em um cais e entra num barco. Ele velejou para longe, passou dias em alto mar e ao longe encontra uma ilha. 

Em meio a mata uma luz parecida com uma fogueira brilha, curioso Max se aproxima escondido entre as árvores. Lá estavam seres enormes com garras, aparências estranhas e dentes afiados, um deles estava destruindo suas  tocas, mas uma discussão parece ocorrer entre alguns deles.  

Max se mostra a essas criaturas, eles confusos ameaçam devorá-lo. Para  evitar isso, o garoto explica ser um rei cheio de poderes que vem de um lugar longínquo,e já tinha derrotado vikings Os monstros parecem interessados e perguntam sobre a extensão de poderes de Max, que diz possuir um escudo que afastava toda a tristeza e manteria todos unidos. Acreditando, o bando aceita ele como seu rei. 

Página original do livro “Onde Vivem Os Monstros”

A história se passa inteira dentro dessa grande fantasia da mente de Max,  num mundo onde ele é o soberano e seres muito mais fortes são seus súditos. Desde o início é visto como ele tem uma mente muito fértil criando histórias mirabolantes do zero. A imaginação fértil em crianças da idade dele é considerada comum, mas no caso dele é o seu é o seu meio de enfrentamento.  

Segundo Sandra Adriana no artigo “Correlatos e consequências do retraimento social na infância”, crianças socialmente retraídas acabam tendo dificuldades nas relações e interações sociais, as fazendo se sentirem mais solitárias. Eles se tornam mais suscetíveis a internalizar suas próprias questões e ter um controle mais excessivo com seu comportamento e emoções.  

Um exemplo disso seria logo no começo do filme, quando Max está na escola e seu professor de ciências explica para a sala que um dia o sol vai explodir. O garoto se preocupou imensamente com a questão, porém não externalizar para a mãe quando vai buscá-lo.

Ao decorrer do longa-metragem, o protagonista começa a perceber que assumir esse papel de liderança, a responsabilidade de cuidar do bando se tornar um fardo. Os membros do grupo se encontram cada vez mais segregados e as ideias de Max para manter todos unidos se mostra cada vez menos eficiente. 

O conflito se inicia com Carol querendo cada vez mais a segurança e o controle da situação. Max, como o rei  havia criado um plano de construção de um forte grande o suficiente para eles conviverem juntos, uma toca para todos. Quanto mais perto está da finalização da construção, mais estranho se torna a convivência do bando.

Uma personagem de grande importância nesse ponto da trama é a K.W. Ela é sempre o estopim dos ataques de Carol. Sendo mais calma entre o grupo, e tentando ter sua própria vida fora do grupo com seus dois amigos Bob e Terry, duas corujas. 

Devido às situações que se tornarem cada vez mais complicadas, Max começa a ficar sobrecarregado por não saber resolver, afinal ele é somente uma criança. A fina paz finalmente despenca. Carol que até o momento não tinha percebido que estava sendo enganado entra em colapso. Ele via em Max uma salvação, alguém resolveria todos os seus problemas, alguém que realmente tivesse o poder que poderia ajudá-lo a se encaixar em seu bando. 

Em um momento de descontrole e desentendimento entre os dois melhores amigos, Carol corre atrás de Max ameaçando devorá-lo. O garoto só consegue fugir porque K.W. o esconde em sua boca.  

Depois de pensar muito em todas as situações que viveu na ilha, Max percebe que sente falta de casa, e resolve voltar. Em sua visão, ele sente muito pelos monstros não terem uma mãe, uma figura de acolhimento e ordem.  

O protagonista se vê em Carol, como se ele se visse diante de um espelho. A irritação perante o novo namorado da mãe se liga com o intenso ódio de Carol pelas duas corujas amigas de K.W. A impulsividade, o comportamento agressivo, podem ser o acúmulo das frustrações perante situações sociais, como mencionado no artigo de Sandra Andrade.  Ambos se mostram confusos, e por não saberem como expressar em palavras acabam se tornando muito reativos. 

Durante as interações dos dois eles trocam preocupações, como se um pegasse o fardo para si. A partir daí, Carol se torna mais neurótico e ansioso, enquanto Max se torna mais impulsivo e desatento. Porém em determinados momentos ambos tem uma troca real, como   se orbitassem um ao outro. Nesses breves momentos de silêncio do filme, eles estão em paz. 

O slogan do longa metragem é “existe algo selvagem dentro de todos nós”, Max realmente enfrentou o ser selvagem dentro de si – representado por Carol.  E em vez de domá-lo ou ignorá-lo , ele o acolheu e compreendeu. A obra em sua totalidade de uma hora e quarenta e um minutos traz uma visão sensível sobre a mente humana e como alguns pontos como, comportamento podem ser muito mais profundos do que parecem. 

Curiosidades

A obra original, de foi ganhadora de melhor livro infantil por especialistas da BBC em 2023.  Também ganhadora de alguns prêmios como a Medalha Caldecott em 1964, prêmio esse concedido pela Associação de Bibliotecas dos Estados Unidos para o melhor livro ilustrado infantil.

E a Medalha Hans Christian Andersen em 1970, concedida pelo Conselho Internacional de Livros para Jovens (IBBY). 

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