A sociedade desde seu início é formada em sua essência por grupos, na análise de Rogério Andrade Bettoni do livro “O Ser e o Nada à Crítica da Razão Dialética” de Sartre, os grupos são considerados uma necessidade. 

A necessidade não é simplesmente um estado de falta ou deficiência, mas um estado de dependência do homem frente ao mundo em que vive: o homem é lançado no mundo e dependente dele. Sendo assim, a necessidade é característica específica do homem, marcando tanto a sua relação com as coisas quanto com os Outros, numa reciprocidade.

Dessa maneira, o ser humano tenta encontrar o grupo, ou pequena sociedade onde melhor se encaixa. Naquele espaço ele tem a reciprocidade que tanto almeja. Para muitas pessoas as subculturas seriam esse lugar. 

Para tratar de subculturas, antes o termo cultura precisa ser explorado. A cultura é um conceito sociológico e antropológico, tendo diversas definições. Ela é o conjunto de valores, ideais, símbolos, comportamentos e tradição de uma determinada comunidade, como países, por exemplo. 

A subcultura é um conceito parecido, também vindo da sociologia, porém em vez de se referir a um grande coletivo, o termo diz respeito a um grupo mais seletivo. Logo as subculturas se encontram dentro da cultura, tendo suas próprias características e ideais, sempre tendo um contraste com a cultura dominante. 

Um dos entrevistados Henrique Kipper – coautor do site e editor da revista Gothic Station, além de ser coautor do livro Happy House in a Black Planet: Introdução à Subcultura Gótica. Ele trouxe a sua visão do que são as subculturas. Para ele elas são um sintoma do século 20, um sintoma da falta de sentido social que resulta do novo modelo de sociedade fragmentada. 

Kipper usa de exemplo a cultura grega antiga, dizendo que a religião e a economia eram sociais um meio de subsistência da sociedade. Porém hoje temos um modelo econômico que fragmenta a cultura. A cultura passa a ser comprada, em livrarias, em ingressos de cinema, para ele, a cultura se consome separada de valores e significados sociais. 

Em suas próprias palavras: “Cultura no sentido antropológico, no sentido sociológico, ele é o conjunto de características de um grupo social quando a gente fala de subcultura a gente não tá falando de um subtipo de  cultura-produto, a gente tá falando de um sub-tipo de cultura integrada, certo?”

Segundo Kipper, a subcultura é um sistema cultural integrado em que as esferas culturais estão interligadas. Ele deu de exemplo da compra de uma bota preta de fivelas. As botas fazem parte de uma rede de significados, uma teia relacionada a um discurso maior e uma visão de mundo, porém, ao ser consumida de maneira fragmentada, torna-se apenas mais um colecionável. O ato de comprar um produto relacionado a uma subcultura não insere o comprador naquele meio. Embora seja positivo que a pessoa consuma algo fora de sua zona de conforto, é crucial entender que uma subcultura é maior do que uma peça de roupa, estilo de música ou maquiagem: ela é um estilo de vida.

Afinal, a roupa pode, de fato, transparecer pensamentos e crenças? Nossa segunda entrevistada, Fruki – dona da marca Diabartt,  loja no instagram.  Para ela, isso é uma questão social, levando em conta que pela forma em que a sociedade se movimenta, expressar suas crenças e pensamentos em sua aparência externa. 

Fruki usa a si mesma de exemplo, trazendo um recorte do ano de 2024, onde teve que se padronizar. Ela ressalta que mesmo tendo independência financeira e sendo maior de idade teve problemas com isso, assim conclui que as vestimentas não são a prioridade e muito menos categorizam alguém como parte de uma subcultura.

Seguindo a linha de Kipper, Fruki também menciona como muitas pessoas usam a vestimenta da subcultura como uma trend¹, uma fantasia, e não uma forma de expressar o seu verdadeiro eu. 

Trazendo a tona esse princípio de desentendimento entre as pessoas e a sociedade, de que maneira uma  marca de roupas focada nesse público alternativo se adapta não só ao público mainstream mas a todos fora da comunidade. 

Usando uma matéria da Luxuo, “A Morte da Subcultura: Como o Vestuário Cult Evoluiu para a Cultura Dominante”, em um momento histórico em que as tendências digitais determinam o que é moda, e o fast fashion² transforma a produção em distribuição acelerada, tornou a expressão própria sobre o que o consumidor tem acesso, e não sobre mostrar o seu verdadeiro eu. 

Nesse contexto, como uma marca de roupas para um público mais alternativo pode se encontrar e se adaptar a essa realidade? Segundo Fruki, há maneiras de ser alternativo com a sociedade em que vivemos, ela mesma traz conteúdo traz conteúdo em suas redes sociais. 

Em sua fala, ela destaca o quão ruim é a ideia de ter que se ajustar: “Então, eu acho que uma marca de roupa, se ela quer vestir as pessoas alternativas no dia-a-dia, ela precisa ter essa adaptação. Mas não é o caso da minha marca. Tipo, eu trazia esse tipo de conteúdo no meu perfil pessoal, mas a minha marca é literalmente para as pessoas conseguirem se expressar como elas querem mesmo.”, afirma Fruki.  O lema de sua marca reforça sua visão, que sua marca é reptiliana, referência a teoria da conspiração que defende a existência de  seres humanoides reptilianos disfarçados controlam secretamente a humanidade. Uma maneira de mostrar como sua marca serviria para disfarçar aqueles que não se encaixam na humanidade.  

As subculturas sempre tiveram uma ação muito política, incômodos com modelos de sociedade, um discurso simbólico segundo Kipper. Um exemplo usado pelo escritor é a comunidade gótica, nela é comum ver um homem usando maquiagem, com roupas consideradas femininas, ou uma mulher com um visual que ironiza o modelo de mulher submissa. Kipper pontua como essa fuga dos modelos tradicionais e conservados é disruptiva e acaba afetando a sociedade na prática, para ele a subculturas só existem, segundo suas palavras: “Enquanto uma ação prática social, as subculturas criam um espaço de diferença em que há mudança social, que é um espaço de diferença…”. Porém, da mesma forma que a subcultura afeta a sociedade, a sociedade também afeta a subcultura.    

Durante a existência humana a vivência do ser humano se modifica em qualquer época, até mesmo as gerações influenciam nisso, e assim acontece também com as subculturas. Apontado por Fruki, a subcultura nasceu da oposição, ela dá de exemplo a subcultura punk que nos anos 80 funcionava de uma maneira, com pautas específicas daquele momento histórico, porém sua essência prossegue a mesma. As subculturas não morreram, apenas se transformam. 

Ao fim, se destaca como diferentes subculturas trazem à tona a essência do ser humano, destacando o seu verdadeiro eu. Esses grupos trabalham com políticas e críticas que precisam ser vistas, dado principalmente a esse consumo desenfreado em cima de tendências.  Mas acima de tudo agrupando e dando refúgio para aqueles que se sentam longe do que é considerado o padrão, mostrando-se de forma autêntica à sociedade. 

  • Glossário:
  • Trend¹: Termo em inglês que significa “tendência”, é um padrão de comportamento, estilo ou moda que se torna popular e amplamente difundido por um período de tempo limitado, especialmente em plataformas de mídia social, como Tik Tok, Instagram, etc.
  • Fast Fashion²: Do inglês, que significa moda rápida. É um modelo de produção e consumo na indústria de vestuário caracterizado pela renovação extremamente rápida e constante de coleções.

Deixe um comentário

Tendência