Para as comunidades chinesa, coreana e vietnamita no Brasil, o ano só começa de fato com o Ano Novo Lunar. Se nas ruas do bairro da Liberdade, em São Paulo, o público vê as Danças do Leão, nos bastidores das casas brasileiras, são as mulheres quem garantem que essa herança milenar sobreviva ao “jeitinho brasileiro” e à distância da Ásia.
O Desafio dos Ingredientes e o “Sabor de Casa”
No Brasil, a manutenção da tradição passa obrigatoriamente pela adaptação. Mulheres de comunidades em São Paulo e Curitiba tornaram-se especialistas em encontrar substitutos locais para ingredientes que, décadas atrás, eram raros por aqui.
O preparo do Jiaozi (o guioza chinês) ou do Tteokguk (sopa de massa de arroz coreana) torna-se um evento social. “É o momento em que a cozinha vira um portal”, diz a sabedoria popular das comunidades. Mulheres de diferentes gerações se reúnem para cozinhar, e é nesse espaço que as avós, muitas que chegaram ao Brasil com quase nada na bagagem, ensinam às netas brasileiras o valor simbólico de cada alimento: o peixe para a abundância e o macarrão longo para a vida longa.

Para a mulher asiático-brasileira, o fim de ano lunar é uma jornada de dupla identidade. Elas são as responsáveis por organizar a logística dos envelopes vermelhos (Hong Bao), garantindo que os filhos e netos, muitas vezes já totalmente integrados à cultura ocidental, compreendam o valor da gratidão e da hierarquia familiar.
Jornalisticamente, observamos um movimento interessante: no Brasil, o Ano Novo Lunar tem servido como uma ferramenta de afirmação de identidade. Em um país de mistura, essas mulheres lutam para que suas raízes não sejam “diluídas”. Elas organizam associações femininas e eventos beneficentes que arrecadam fundos para a própria comunidade, transformando a celebração em uma rede de apoio socioeconômico.
O cenário atual conta com a força das jovens descendentes. No Brasil, elas utilizam o Instagram e o TikTok para desmistificar o Ano Novo Lunar para os brasileiros, combatendo estereótipos e mostrando a diversidade da Ásia.
Elas resgatam o uso das vestimentas tradicionais, mas com um toque brasileiro: usam o Qipao ou o Hanbok em ambientes urbanos, orgulhando-se de uma ancestralidade que, por muito tempo, as gerações anteriores tentaram discretizar para facilitar a integração no país.
No Brasil, o Ano Novo Lunar não é apenas uma data no calendário lunar; é um exercício de memória afetiva. Enquanto o trabalho invisível das matriarcas prepara a mesa e limpa a casa de “más energias”, o trabalho visível das jovens afirma que ser asiática e ser brasileira são identidades que se somam. A virada do ano, para elas, é a celebração de terem vencido a distância e o tempo, mantendo o coração do Oriente batendo forte em solo tropical.






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