O filme da vez é a obra de 2012 “Ruby Sparks – A Namorada Perfeita”, com direção de Valerie Faris e Jonathan Dayton. A história foca em Calvin Weir-Fields, um escritor que está a alguns meses com bloqueio criativo Ele parece sem inspiração, parece entediado com a vida.
Durante uma sessão de reclamações com o psicólogo, sobre como sua vida é chata e como as pessoas não se interessam nem por seu cachorro, o psicólogo de Calvin propõe um desafio. Ele deveria escrever sobre alguém que gostasse de verdade de seu cachorro.
Mesmo a contragosto e lamentando que nunca conseguiria, ele vai pra casa. Porém com o passar dos dias ele começa a sonhar com uma mulher misteriosa , e diferente do que ele esperava, essa mulher adora o seu cachorro.
Sentindo a inspiração, Calvin começa a escrever. Ele cria um passado, gostos, lembranças e um nome.
Ruby.
Todos os dias seu único foco era escrever sobre ela, se tornando obcecado em desenvolver uma história onde ambos protagonizam.
As poucas pessoas próximas a ele começam a ficar preocupadas, principalmente seu irmão Harry. Ele mostrava estar feliz que Calvin voltou a escrever, mas se apaixonar por sua própria criação não faria bem para sua cabeça.
Depois de mais uma noite escrevendo, Calvin dorme sobre a máquina de escrever e acorda atrasado para um compromisso. Desesperado, ele corre pelos cômodos pegando seus pertences, quando estava apresenta sair, perto da porta seu cachorro quer ir passear. Frustrado, Calvin grita.
Mas uma voz o responde dá cozinha, Ruby aparece em sua frente.
A partir daí, depois de algumas reviravoltas, gritos e possíveis questões psiquiátricas, ambos começam um relacionamento.

A história é trabalhada em cima de poucos cenários, e nada muito marcante em relação a direção, mas o roteiro consegue tornar os personagens reais. Torna os conflitos do relacionamento real.
Depois que a fase da lua de mel passa, os problemas começam a ser cada vez mais frequentes. Calvin vai se mostrando cada vez mais fechado e desinteressado, e é nesse momento que o filme real começa e a fantasia é deixada de lado.
Ruby é uma personagem escrita dentro da categoria chamada “manic pixy dream girl”, o termo em uma tradução livre seria como “a garota fada maníaca dos sonhos”.
De forma mais clara, seriam personagens femininas que o roteiro usa para fazer a história do protagonista masculino – na maioria das vezes desiludido a caminhar. Elas não têm problemas próprios, ambições e muito menos desenvolvimento. E se tem, são mostradas de maneira rasa.
O mais marcante neste tipo de personagem seria sua peculiaridade, elas são enérgicas e não ligam para regras. Quando ela chega, todos percebem. E acima de tudo, ele sempre é problemática de alguma maneira.
Porém ao longo da trama, Ruby começa a se afastar cada vez mais desse arquétipo . Dessa idealização de Calvin de uma mulher perfeita, porque ela não é mais um personagem em um livro e sim uma pessoa real, com fases, problemas e autonomia.
O incômodo de Calvin cresce ao ponto de ele fazer algo que prometeu ao seu irmão em determinada parte do filme, que nunca faria. Modificar Ruby pela escrita do livro.
Uma breve explicação, um tempo depois que Ruby aparece magicamente, Calvin e Harry descobrem que qualquer alteração feita no manuscrito original do livro afeta diretamente a mulher.
Utilizando isso, Ruby começa a ser manipulada. Primeiro é escrito nas páginas que ela se sente mal longe de Calvin, o que a deixa praticamente grudada nele, emotiva e ciumenta.
Incomodado novamente, ele escreve que uma alegria espontânea toma Ruby, mas esse sentimento parece extremamente falso.
A cada modificação mais frustrado ele se torna, afinal nunca vai ser o suficiente. Por fim, ele a faz voltar ao normal, e as brigas também voltam.

Mas o filme não se sustenta somente nisso, ele torna verdadeira a frase “a ânsia de ter e o tédio de possuir”. Como às vezes o que vemos nas páginas de um livro, nas palavras de um poema e na ludicidade de um sonho deveriam se manter longe da realidade vivenciada por nós todos os dias.
A simplicidade de uma rotina extremamente cotidiana gera uma tendência ao sonhar, a mente praticamente se desprendendo do próprio corpo, como numa tentativa de fugir de tudo.
Dissociação, assim como Calvin, quando tudo parece ficar de mais em uma sociedade onde estar solteiro é sinônimo de ser mal sucedido, se inventa alguém. Seja se reimaginar e fingir ser alguém que não é, ou imaginar uma realidade onde o mundo ao seu redor tudo mudou.
O longa-metragem “Ruby Sparks – A Namorada Perfeita”, é um filme simples porém muito bem escrito, que consegue tratar relacionamentos de uma forma real e não fantasiosa. Usando metáforas extremamente claras de que a vida e a realidade não são fantasia.













Deixe um comentário