A mudança física em decorrência do tratamento, o impacto psicológico e a importância de estar junto.

Segundo o Instituto Nacional de Câncer (Inca), o câncer de mama é o segundo que mais atinge mulheres em todas as regiões do país. Durante o tratamento oncológico é comum essas mulheres passarem por uma quebra da autoimagem, ocasionada pela queda de cabelo e aumento ou perda de peso. Tudo isso afeta a autoestima das pacientes e pode levar a um quadro de imunodepressão.

A imunodepressão acontece quando o sistema imunológico fica comprometido durante o curso de certas doenças como o câncer. Dessa forma, o paciente fica mais suscetível a doenças infecciosas.

A psicóloga oncologista Zanadréia Kussek explica que a mudança física em decorrência do tratamento pode gerar um impacto negativo em um primeiro momento. A mulher passa por um processo de descaracterização que não foi de sua escolha. Para mitigar esse sentimento de despersonalização ela orienta que as pacientes cortem o cabelo aos poucos para não causar uma mudança brusca de imagem.

Para Maria Cristina dos Santos Silva, de 41 anos, que terminou o tratamento de quimioterapia e radioterapia em 2019, existe um baque causado pela mudança na aparência. “De se olhar no espelho e não se reconhecer, porque um dia você está de um jeito e de repente você não tem um fio de cabelo.”

Em diferentes culturas, o cabelo age como um significante de destaque na construção social da feminilidade, e isso está atrelado não somente a uma identificação social, mas também à identidade pessoal e seu entendimento enquanto mulher. Nesse sentido, o cabelo deixa de ser apenas um adorno e começa a agir como um objeto de reconhecimento, fundamental para a construção da autoestima.

Cuidar da pele e se maquiar, é uma das orientações que Zanadréia passa para suas pacientes. Segundo ela, é preciso enxergar outras belezas além dos cabelos, “A mulher tem toda essa questão da feminilidade, o nosso cabelo tem muito a ver com a nossa personalidade também”.

A enfermeira Talita Rodrigues Mattos passou pelo tratamento de câncer de mama e conta que durante todo o processo buscou manter sua autoestima de forma a não desenvolver imunodepressão. Para isso ela passou a usar cílios postiços, aplicar maquiagem e utilizar lenço ou perucas, principalmente quando precisava sair de casa.

Já a aposentada Silvia Bernardes de 54 anos, está em tratamento e percebeu que a depressão era o que piorava o estágio do câncer e com a intenção de evitar isso, focou em fazer atividades que ocupassem o seu tempo e sua mente como fazer aula de dança, participar de palestras e passeios. Silvia também contou com o apoio da família e amigos para se manter forte.


Em uma situação de diagnóstico de câncer é comum a família sentir dor assim como a paciente, o que acontece, porém, é que eles se sentem desconexos, como se não tivessem o direito de sentir essa dor, explica Zanadréia. A melhor maneira de ajudar é simplesmente estar junto.

Para a Talita, o encorajamento do marido, na época namorado, foi essencial para o fortalecimento de sua autoimagem. “As pessoas ajudavam a minha autoestima a ser mantida, as pessoas que me amavam e que eu amava também.” Foi assim que ela entendeu a importância de cuidar da autoestima de outras mulheres em tratamento oncológico que não possuíam o apoio dos companheiros.

Ela criou o projeto “Doe lenço, doe alegria”, enfatizando como o lenço era importante para a autoestima das pacientes e para além disso, ele serve como proteção contra a radiação solar e contra o frio. Nem todas as mulheres têm condições de comprar, “gastar com lenço não é uma prioridade, comprar dipirona é prioridade”. O projeto cresceu rapidamente e Talita se viu falando do câncer de mama fora da época do outubro rosa.

A experiência de ajudar mulheres com câncer após finalizar o seu próprio tratamento fez Talita perceber o quão importante era ter alguém que passou pela mesma situação e as entendesse para conversar. Ela criou o Instituto Romatt de Combate ao Câncer que realiza encontrinhos e terapia em grupo para as pacientes tirarem dúvidas, exporem suas angústias, dividirem experiências e medos e terem um local de pertencimento.

Grupos de apoio ajudam no cuidado da saúde mental de mulheres em tratamento oncológico, pois trazem um sentimento de identificação entre elas. Eles trazem uma maior liberdade para conversar, uma inspira as outras e ajudam a florescer o sentimento de esperança.

Luísa Mara Silva Lima Beserra de 33 anos trabalha na área da estética há 17 anos e tem seus serviços recomendados em grupos de apoio da cidade onde mora, “Elas têm uma sede de encontrar outras pessoas que estão passando também pelo mesmo problema, até para se fortalecer espiritualmente e psicologicamente pelo que vem pela frente.”


Luísa é responsável pelo projeto “Pague com um sorriso”, em que presenteia sessões de micropigmentação na sobrancelha para pessoas que possuem câncer ou alopecia severa, que façam tratamento pelo SUS. O projeto surgiu quando ela se sensibilizou ao atender uma cliente que estava prestes a iniciar o tratamento. “Porque a maioria das mulheres que passam por isso ficam com a autoestima abalada e a sobrancelha é uma forma de se expressar.”


Em março deste ano estreou o filme “Câncer com ascendente em Virgem” dirigido por Rosane Svartman. O longa conta a história de Clara, uma professora de matemática que precisa aprender sobre vulnerabilidade após o diagnóstico de câncer de mama. Suzana Pires, intérprete de Clara e roteirista, descreve o filme como uma história sobre as relações humanas.

         Suzana conta que para a escrita do roteiro ela e a equipe entraram em contato com diversas mulheres que passaram pelo diagnóstico de câncer de mama. Eles trouxeram para o filme a necessidade do apoio e da presença dos familiares e pessoas próximas nesse momento, com a relação da Clara com sua mãe.

O longa também mostra como cuidar de si mesma para além do cabelo faz parte do tratamento, “quando a mulher larga essa força do espelho, o caminho tende a levar ela para uma fragilidade emocional maior”. Além disso, o filme trata de outros assuntos como a falta de desejo sexual e como isso afeta as mulheres que estão em tratamento oncológico e a importância da sororidade.

2 respostas para “A Autoestima feminina durante o Câncer de Mama”.

  1. Avatar de Douglas Mota Gomes Carvalho
    Douglas Mota Gomes Carvalho

    Excelente. Parabéns pelo trabalho.

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  2. Excelente.

    Na escola em ué trabalho, estamos com campanha para doação de lenços, que achei uma ideia ótima

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