Confiar é a base de qualquer processo terapêutico. Mas o que acontece quando essa confiança é quebrada de forma irreversível? Essa foi a realidade enfrentada por Meri-Tuuli Auer e milhares de outros pacientes na Finlândia, vítimas de um dos maiores crimes cibernéticos já registrados no país.

Em outubro de 2020, um hacker invadiu os servidores da Vastaamo, uma empresa privada que oferecia serviços de psicoterapia, e roubou registros sigilosos de cerca de 33 mil pacientes. As informações incluíam dados pessoais sensíveis e, principalmente, transcrições detalhadas de sessões terapêuticas.

Para Meri-Tuuli, hoje com 30 anos, o impacto começou com um e-mail encontrado na caixa de spam. A mensagem continha seu nome completo, número de identificação social e detalhes íntimos de sua vida. O remetente exigia o pagamento de um resgate em bitcoins sob ameaça de tornar públicos seus registros psicológicos.

Meri-Tuuli Auer foi uma dos 33 mil pacientes da Vastaamo que tiveram seus registros terapêuticos roubados em outubro de 2020 por um hacker anônimo

“Foi aí que o medo começou”, relembra. Auer se afastou do trabalho, se isolou em casa e passou a evitar qualquer contato social. O sentimento de vulnerabilidade era constante, alimentado pela incerteza sobre quem poderia ter acesso aos seus segredos mais profundos.

O caso rapidamente ganhou proporção nacional. Em um país de pouco mais de 5 milhões de habitantes, era difícil encontrar alguém que não conhecesse uma vítima do vazamento. Os registros incluíam relatos de depressão, tentativas de suicídio, abuso sexual e conflitos familiares — informações que jamais deveriam sair do consultório.

Antes mesmo de enviar mensagens de extorsão aos pacientes, o hacker já havia publicado todo o banco de dados na dark web. Desde então, esse material passou a circular livremente, sendo lido, copiado e até indexado por mecanismos de busca ilegais.

A investigação mobilizou as autoridades finlandesas por quase dois anos. Em 2022, a polícia identificou o principal suspeito: Julius Kivimäki, um cibercriminoso já conhecido. Preso na França e extraditado, ele foi condenado a seis anos e sete meses de prisão. Ainda assim, segue negando envolvimento no ataque.

Para as vítimas, a sentença trouxe reconhecimento, mas não reparação completa. Mais de 21 mil ex-pacientes entraram com ações judiciais, e advogados relatam casos de pessoas que tiraram a própria vida após descobrirem que seus prontuários haviam sido vazados.

Mesmo anos depois, as consequências persistem. Muitos pacientes relatam dificuldade em voltar à terapia, justamente por medo de uma nova violação de confiança. “Esse caso abalou profundamente a relação entre pacientes e profissionais de saúde mental”, afirma Auer.

Em vez de se esconder, ela decidiu enfrentar a exposição. Tornou pública sua condição de vítima, conversou com a família sobre os conteúdos vazados e encontrou apoio. Mais tarde, publicou um livro relatando sua experiência, como forma de retomar o controle da própria narrativa.

“Minhas informações podem estar espalhadas para sempre”, diz. “Mas pelo menos eu posso contar a minha versão da história.”

O caso Vastaamo deixou um alerta claro para o mundo: em tempos de digitalização da saúde, a proteção de dados sensíveis não é apenas uma questão técnica, é uma questão ética e urgente.

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